A força de trabalho está envelhecendo. Sua empresa está preparada?
Mais brasileiros devem permanecer ativos por mais tempo. Como adaptar o trabalho para profissionais experientes e criar condições para atrair e manter os mais jovens?
A aposentadoria aos 60 anos está cada vez mais distante para muitos brasileiros. Para as empresas, isso torna urgente repensar como atrair jovens e manter profissionais experientes com saúde, segurança e produtividade.
Na pesquisa Percepção dos Brasileiros sobre Proteção e Planejamento, encomendada pela FenaPrevi ao Datafolha em 2026, 59% das pessoas não aposentadas disseram que gostariam de deixar o mercado de trabalho até os 60 anos. Apenas 28% acreditam que conseguirão. É uma percepção sobre o futuro, não uma impossibilidade de se aposentar nessa idade: as regras do INSS dependem do histórico de contribuição e das regras de transição. Na regra geral, a idade mínima é de 62 anos para mulheres e 65 para homens.
O recado para o empresário é prático: as pessoas tendem a permanecer ativas por mais tempo, enquanto a composição etária da população muda. Segundo o Censo do IBGE, a idade mediana no Brasil passou de 29 anos em 2010 para 35 anos em 2022. A parcela da população com 60 anos ou mais passou de 8,7% em 2000 para 15,6% em 2023 e, nas projeções do Instituto, pode chegar a 37,8% em 2070. Projeção não é destino certo, mas é um sinal importante para planejar.
Dois desafios de gestão, uma estratégia de pessoas
O primeiro desafio é criar condições para que profissionais experientes continuem contribuindo. Isso envolve mais do que cargos e salários: saúde ocupacional, prevenção, ergonomia, mobilidade e organização das tarefas precisam entrar no planejamento da equipe.
Olhe para as atividades reais de cada função: esforço físico, movimentos repetitivos, pausas, circulação, mobiliário, equipamentos, jornada e deslocamento até o local de trabalho. A NR-17 orienta a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas das pessoas e considera tanto os postos e equipamentos quanto a organização do trabalho.
O segundo desafio é atrair e desenvolver profissionais mais jovens. A taxa de fecundidade brasileira caiu de 2,32 filhos por mulher em 2000 para 1,57 em 2023, segundo o IBGE. Isso não determina a escolha de cada jovem, mas ajuda a entender por que a oferta futura de trabalhadores pode ficar mais limitada em alguns setores e ocupações.
Também não ajuda dizer que ‘os jovens não querem trabalhar’. Pesquisa do Ministério do Trabalho e Emprego sobre desligamentos voluntários em 2024 identificou, entre jovens de 18 a 24 anos, fatores como baixo salário, falta de reconhecimento, problemas éticos na atuação da empresa e pouca flexibilidade de jornada. Oferecer oportunidades, boas condições e perspectivas faz parte da disputa por talentos.
Da demografia ao resultado da empresa
Essas mudanças podem aparecer no custo de contratação, na rotatividade, nos salários e na produtividade. Quando a empresa não consegue atrair ou reter pessoas, gasta mais com reposição e treinamento, pode interromper a operação e ter dificuldade para atender à demanda. Onde faltam profissionais, a competição também pode pressionar a remuneração.
Custos maiores podem repercutir nos preços, mas esse repasse não é automático. Depende do setor, da produtividade, da concorrência e da capacidade de reorganizar processos. Para o empresário, o ponto é acompanhar esses sinais junto com margem, fluxo de caixa e resultado — antes que a falta de gente vire um problema operacional ou financeiro.
O que o empresário pode começar a fazer
Uma revisão prática da equipe e da operação
- Mapeie funções críticas: identifique onde há dificuldade de contratação, rotatividade ou dependência de poucas pessoas.
- Revise tarefas e ergonomia: avalie exigências físicas e cognitivas, equipamentos, pausas, circulação e organização do trabalho.
- Integre saúde e gestão: observe afastamentos, incidentes e condições de trabalho para orientar prevenção e ajustes.
- Crie caminhos entre gerações: combine formação inicial, aprendizado no trabalho, desenvolvimento de carreira e aproveitamento da experiência acumulada.
- Reveja sua proposta ao profissional: analise remuneração, reconhecimento, liderança, jornada e possibilidades de flexibilidade conforme a operação.
- Acompanhe indicadores: relacione rotatividade, absenteísmo, horas extras e custo de pessoal à produtividade e à margem.
A mudança demográfica pede duas adaptações simultâneas: tornar o trabalho sustentável para quem seguirá ativo por mais tempo e criar condições para que novas gerações queiram entrar, aprender e permanecer. Não há uma fórmula única. Há a necessidade de conhecer a própria operação e tratar a gestão de pessoas como parte da gestão do negócio.
Para pequenas e médias empresas, esse planejamento ajuda a proteger a continuidade da operação, controlar custos e sustentar resultados. A TCV apoia empresas na organização da gestão e na leitura dos números que transformam desafios de mão de obra em decisões mais claras.
Fontes e referências
- FenaPrevi/Datafolha — Percepção dos Brasileiros sobre Proteção e Planejamento (2026)
- Folha de S.Paulo — regras de aposentadoria e pesquisa
- IBGE — pirâmide etária
- IBGE — projeções e estimativas de população
- Ministério do Trabalho e Emprego — NR-17
- Ministério do Trabalho e Emprego — Pesquisa de Desligamentos Voluntários (2024)
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